Crenças e informações: como promover a saúde ocular

As crenças são uma forma de conhecimento popular revestida de convicção, confiança e alto grau de certeza, a respeito de um determinado fenômeno ou objeto. “As crenças em saúde, apesar de muitas vezes não corresponderem ao conhecimento científico, não necessitam de comprovação para serem aceitas e incorporadas ao repertório popular. Essa integração ao contexto cultural ocorre em conseqüência da repetição do que se acredita verdadeiro nos contatos individuais e informais dos grupos sociais ao longo do tempo”, afirma o oftalmologista Virgílio Centurion, diretor do Instituto de Molestas Oculares, IMO.

Assim, o conhecimento popular difunde-se… As crenças, conhecimentos, atitudes, valores, emoções e condições sócio-ambientais constituem-se em determinantes da conduta da população em relação à saúde, incluindo-se, aqui, a saúde ocular. “Em outras palavras, a forma de acreditar do indivíduo impõe influências restritivas ou libertadoras ao seu processo de decisão e ação, no que diz respeito à promoção da saúde ocular, à prevenção de doenças e ao tratamento dos problemas visuais”, defende o médico.

Segundo Centurion, concepções errôneas e mitos populares relacionados à visão estão presentes nos mais variados extratos sociais. Em mais de quatro décadas exercendo a medicina, o oftalmologista observa que já teve que desmistificar muitas crenças em seu consultório. “A consulta médica, às vezes, se transforma numa aula de Oftalmologia, pois, em alguns casos, o paciente necessita mais de informação correta do que de medicamentos”, diz.  A seguir, Virgílio Centurion e outros oftalmologistas que integram a equipe médica do IMO tentam esclarecer ou desmistificar algumas das crenças mais comuns sobre a saúde ocular:

– Dores de cabeça sempre estão associadas a problemas de visão?

Virgilio Centurion – Não. Muitos pacientes que apresentam dor de cabeça crônica acreditam que esta é fruto de um comprometimento ocular ou de vícios de refração. Na realidade, miopia, hipermetropia e astigmatismo raramente são causas das formas mais comuns de dor de cabeça. Existem outras prováveis causas para a presença de dor de cabeça que só podem ser excluídas após exames oftalmológicos. A cefaleia é tão complexa que é objeto de um estudo integrado de vários especialistas: neurologistas, oftalmologistas, psicólogos, clínicos. É preciso um parecer da equipe multidisciplinar para determinar a causa da dor de cabeça frequente.

– Dormir com as luzes acessa ajuda a prevenir o aparecimento da retinopatia diabética?

Eduardo de Lucca – No ano de 2002, o site da BBC Brasil publicou uma reportagem sobre um estudo da Universidade de Cardiff, na Grã-Bretanha, sugerindo que os indivíduos com diabetes dormissem com as luzes acessas. A teoria inglesa diz que a medida pode evitar a retinopatia. Sabemos que a retinopatia diabética aparece porque os vasos sanguíneos da parte posterior dos olhos rompem-se ou são bloqueados. De acordo com a publicação, a retina seria lesada pela falta de oxigênio devido ao bloqueio dos vasos e o problema aumentaria durante a noite, quando os olhos necessitam de mais oxigênio para enxergar em ambientes escuros. Assim, os ingleses concluíram que a claridade no quarto pode passar pela pálpebra, fazendo com que os olhos se adaptem melhor à luz e reduzam o consumo de oxigênio da retina à noite. Na teoria, os estudos britânicos podem até fazer sentido, no entanto, dormir com a luz acesa atrapalha o sono e contraria um princípio do bem-estar do paciente diabético. Hoje, os exames oftalmológicos estão bem avançados e são capazes de detectar a retinopatia diabética, ainda, no início, para que esta doença seja tratada de forma correta, sem impor sacrifícios desnecessários ao paciente.

– Usar maquiagem todos os dias faz com que as lágrimas sequem?

Sandra Alice Falvo – Não necessariamente. A utilização de cosméticos na região dos olhos pode ser prejudicial quando a maquiagem está com a data de validade vencida, podendo causar desde uma simples irritação até a perda da visão. Uma outra implicação do uso freqüente da maquiagem ao redor dos olhos é um possível entupimento da saída das glândulas onde são produzidas parte das lágrimas que protegem os olhos. Com o prejuízo da qualidade da lágrima, a lubrificação ocular fica muito irregular. Surgem então sintomas de ressecamento do olho, piora da qualidade da visão e até alterações no processo de cicatrização ocular.

– Os óculos escuros descansam a vista?

Sandra Alice Falvo – De uma maneira geral, as lentes escuras de boa qualidade, com ou sem grau, protegem os olhos da luminosidade forte e também da radiação ultravioleta. A incidência direta dos raios ultravioleta no olho humano, ocasiona lesões oculares, que gradual e cumulativamente, podem resultar na perda total da visão. As lesões oculares mais comuns causadas pelo excesso de sol são a queda da percepção de detalhes pela mácula – parte da retina responsável por esta função – e a formação da catarata, problema ocular de maior incidência no mundo. Por isto, é fundamental utilizar óculos de sol capazes de filtrar a incidência destes raios, para proteger os olhos.

– O bronzeamento artificial pode causar o envelhecimento dos olhos, como faz com a pele?

Sandra Alice Falvo – Durante o bronzeamento artificial, os olhos também ficam expostos aos raios ultravioletas nas câmaras de bronzeamento. E quando estamos sob lâmpadas de bronzeamento artificial, precisamos bloquear os raios UV. Neste caso, os óculos de sol não resolvem. Devemos, sempre, utilizar óculos especiais de proteção para o bronzeamento. 

– Ler no carro ou no ônibus pode descolar a retina?

Eduardo de Lucca – A retina é a região do olho que recebe a luz e a transforma em sinais que serão enviados para o cérebro. Ela está localizada no fundo do olho e mantém as estruturas oculares no lugar com uma espécie de gelatina chamada humor vítreo. Apenas uma lesão muito forte, como uma pancada, é capaz de provocar o descolamento da retina. Apenas pessoas muito idosas ou que têm miopia acima de 8 graus é que podem ter a retina descolada sem motivos aparentes. A leitura no carro ou no ônibus não interfere neste processo. 

– Comer peixe pode ajudar a proteger a visão? Frutas e vegetais ajudam a prevenir a catarata? É verdade que a cenoura fortalece a visão?

Maria José Carrari – O que é importante para a saúde, em geral, e para a saúde ocular é que a alimentação seja balanceada e rica em vitaminas, proteínas, cálcio, dentre outros nutrientes. A variedade de alimentos fornece as condições para um bom desenvolvimento da visão, não um ou outro alimento especificamente.

– É verdade que vai nascer uma verruga no meu dedo se eu olhar diretamente para o sol ou para um eclipse?

Virgilio Centurion – Olhar para o sol não faz com que apareçam verrugas nos dedos. É muito perigoso olhar diretamente para o sol ou para um eclipse solar porque a intensa radiação luminosa pode queimar as delicadas células fotoreceptoras de luz da retina. Quando isto acontece, estas células não se regeneram e a perda visual é permanente. Neste caso, o único remédio é a prevenção. É preciso se prevenir de todas as radiações luminosas intensas, tais como: soldas, luz ultravioleta ou radiação solar.

– Devemos utilizar colírio para manter os olhos limpinhos todos os dias?

Sandra Alice Falvo – Os colírios são medicamentos e não produtos de beleza. Não devemos usar colírios sem supervisão médica. Usar colírio todos os dias para “clarear “ou “limpar os olhos” é desnecessário. O melhor colírio para a limpeza dos nossos olhos são as nossas próprias lágrimas. Mesmo sabendo que é perigoso comprar remédios com base na indicação de amigos, vizinhos, muitas pessoas ainda recorrem à automedicação regularmente. O perigo desta prática para a visão é grande. Muitas vezes, estes remédios não prescritos pelo oftalmologista causam novas doenças, mascaram os sintomas da real moléstia ou, ainda, não têm efeito nenhum, fazendo com que o incômodo e o mal estar do paciente persistam. Sem a devida indicação médica, a única coisa que se pode passar nos olhos é água limpa. Os colírios que são largamente utilizados pela população, têm princípios ativos variados, como corticoides e antibióticos que podem mascarar ou agravar algumas doenças oculares. Se a pessoa tiver outros problemas prévios, como glaucoma, o colírio pode agravá-los.

– Quem tem baixo grau de miopia não precisa usar óculos, basta fazer exercícios para os olhos? 

Maria José Carrari – Quem possui um grau muito baixo de miopia – entre 0,25 e meio – pode optar por não usar óculos. Dependendo da atividade profissional da pessoa é possível conviver com a miopia sem o uso de óculos. Entretanto, é bom reforçar que a idéia de que com o uso dos óculos a miopia pode aumentar não é verdadeira. Outra informação incorreta é a de que exista algum exercício que possa ser feito para melhorar a visão. Não há nenhum exercício que possa corrigir a miopia.

– É verdade que óculos “vicia” a pessoa?

Maria José Carrari – Não, os olhos normalmente não se tornam dependentes dos óculos ou das lentes de contato. Se a visão é melhorada pelo uso dos óculos ou das lentes, o paciente estará naturalmente inclinado a usá-los regularmente. Crianças míopes, muitas vezes, necessitam, durante alguns anos, de uma atualização freqüente de suas lentes, mas esta necessidade é uma característica inerente à miopia, apresentada gradualmente durante os anos de crescimento. Não se relaciona com “estar viciado” nos óculos ou com qualquer efeito decorrente do uso de óculos. Da mesma forma, adultos com mais de 40 anos necessitam de óculos para leitura, reforçados em grau periodicamente. Isto resulta da progressão natural da presbiopia e não do fato de ter usado óculos ou lentes corretivas durante muito tempo. Abster-se do uso de lentes prescritas não salva os olhos ou previne necessidade futura de óculos.

– Ver muita televisão prejudica a visão?

Maria José Carrari – Assistir TV não prejudica os olhos ou a visão. Há menos esforço visual ligado à TV do que em atividades como ler ou escrever. Mas aqueles que assistem TV por um longo período de tempo podem desenvolver cansaço visual. Uma iluminação muito forte, por exemplo, tende a reduzir o contraste na tela e “desmoronar” a imagem. É bom evitar luzes ou reflexos que possam interferir na tela. O melhor é assistir a TV a uma distância de, pelo menos, 5 vezes o tamanho da imagem. Se uma criança persiste em ver TV a uma distância muita curta, a visão dela precisa ser checada, pois ela pode ter miopia.

– E os computadores prejudicam os olhos?

Maria José Carrari – Também não, mas é bom saber que a era da informática provocou um aumento na incidência da fadiga visual nos usuários de computadores. O resultado disto são olhos irritados ou vermelhos, “ressecados”, lacrimejantes, coceira, “cansaço na vista”, sensibilidade à luz, dificuldade de conseguir foco, visão de cores alteradas, halos ao redor dos objetos, visão embaçada ou dupla… São muitos os sintomas da fadiga visual ou CVS, (Computer Vision Syndrome), o equivalente a “Síndrome da Visão do Usuário de Computador”. Além dos problemas enumerados, a pessoa pode sentir dores de cabeça, na nuca, nas costas e espasmos musculares. A luminosidade da tela faz as pupilas se fecharem, além de provocar esforço muscular, sonolência e cansaço visual. A Síndrome é caracterizada por sintomas oculares que aparecem durante ou após o uso prolongado do computador. Enxergar de perto, exige mais esforço do que enxergar de longe. As imagens do monitor são formadas por ‘pixels’, minúsculos pontinhos nos quais os nossos olhos não conseguem manter o foco, necessitando ‘focar e refocar’ continuamente. O fato do usuário do computador piscar menos diante do monitor também afeta a visão. Piscar é fundamental, pois faz a troca do filme lacrimal, uma película de lágrima que fica sobre a córnea, responsável pela manutenção da umidade dos olhos, indispensável para uma boa visão. É recomendável também uma pausa de pelo menos 10 minutos a cada hora trabalhada, para que o profissional relaxe e volte a piscar normalmente. As pausas devem ser para descansar realmente os olhos. Não para continuar lendo o trabalho ou conversar com o colega sobre o serviço.

– A TV em cores faz mal para as pessoas daltônicas?

Eduardo de Lucca – O daltonismo – deficiência na visão de cores – não é uma barreira para se assistir TV em cores. Contudo, os daltônicos podem discordar com outros espectadores quanto ao ajuste adequado da cor. A imagem da TV em cores pode parecer excessivamente verde para os protanômalos – aqueles que vêem pouco o vermelho – ou muito vermelha para os deuteranômalos – aqueles com dificuldade para enxergar o verde. Quando o daltônico ajusta a imagem para a forma ideal para o seu problema, o resultado deste ajuste torna-se insatisfatório para as outras pessoas que não apresentam o problema.

– Se eu tiver um filho, posso transmitir o daltonismo a ele?

Eduardo de Lucca – O daltonismo é uma condição em que certas cores, principalmente, o verde e o vermelho são confundidas. A incidência é de aproximadamente 10% na população masculina e de 0,5% na feminina. É uma deficiência hereditária de transmissão bastante peculiar, homens daltônicos vão transmitir o gene do daltonismo somente para suas filhas, nunca para os filhos. As filhas não manifestam o daltonismo, mas têm uma chance de 50% de transmiti-lo para seus filhos homens. Portanto, um homem daltônico só tem possibilidade de ter netos daltônicos se tiver filhas, que serão sempre, e somente, portadoras, e a possibilidade desses netos serem daltônicos será sempre de 50%.

– Ler com pouca luz pode enfraquecer a visão? E estudar demais pode enfraquecer a minha visão?

Eduardo de Lucca – Não. Ler ou estudar num ambiente mal iluminado pode cansar ou dificultar a leitura, mas não enfraquece a visão. Nenhum esforço visual é prejudicial ao olho, qualquer que seja a idade da pessoa. Se ela precisar de óculos não será porque estudou ou leu demais ou de menos.

Leite materno pode curar a conjuntivite?

Sandra Alice Falvo – Não. O leite materno é um bom alimento, mas não é medicamento. Se o bebê ou qualquer outra pessoa da família tiver conjuntivite, leve-o ao oftalmologista. Uma vez diagnosticada a provável causa da conjuntivite, o oftalmologista pode prescrever o tratamento adequado. Se esta tiver origem bacteriana, utiliza-se a antibioticoterapia, se a causa for virótica, emprega-se o tratamento para alívio dos sintomas, bem como hábitos especiais de higiene, ajudando desta forma, a controlar o contágio e a evolução da doença.

– Limão é bom para clarear os olhos vermelhos?

Eduardo de Lucca – Não, o limão é totalmente contra-indicado para uso ocular, pois pode provocar uma irritação muito séria nos olhos, podendo ocasionar até uma úlcera na córnea. Para aliviar os sintomas provocados por alguma irritação, o recomendável é consultar o oftalmologista, que poderá prescrever um colírio anti-séptico ou o uso de soro fisiológico. 

– É recomendável esperar a catarata amadurecer para poder operar?

Virgilio Centurion- Como não existe tratamento clínico para a catarata, a única maneira de impedir o avanço da doença e a perda da visão é a cirurgia para a remoção do cristalino opaco e a colocação de uma lente intraocular artificial. A cegueira causada pela catarata pode ser reversível nos casos em que não há outras doenças oculares associadas, como a degeneração macular, a retinopatia diabética ou o glaucoma. É preciso lutar contra esta antiga crença muito arraigada na população: a deixar a catarata ‘amadurecer’ para depois operá-la. Quanto mais cedo for feita a cirurgia, mais rápida será a reabilitação visual.

– É verdade que anel quente é bom para curar terçol?

Maria José Carrari – Não, esta é uma crença popular, só tem valor histórico e cultural. Após o diagnóstico do oftalmologista, o tratamento do terçol é feito, na fase aguda, com aplicação de calor úmido, colírios ou pomadas com antibióticos. Se o paciente for idoso ou muito debilitado é preciso dar uma cobertura sistêmica de antibiótico por via oral, porque a irrigação da pálpebra é muito rica e a infecção pode disseminar-se. Porém, em condições normais, bastam o antibiótico de uso tópico e a aplicação de compressas de água quente, na fase aguda. Caso haja vazamento de material, recomenda-se compressas frias, no tratamento final do processo inflamatório.