Em que casos podem ocorrer perdas súbitas de visão?

Quem já assistiu ao filme Ensaio sobre a Cegueira do cineasta Fernando Meirelles sai do cinema impactado de várias maneiras. Nos consultórios oftalmológicos, a pergunta mais frequente ouvida pelos médicos, após a estréia do filme, é se os casos perdas súbitas de visão são comuns. O filme começa num ritmo acelerado, com um homem que perde a visão de um instante para o outro enquanto dirige de casa para o trabalho e que mergulha em uma espécie de névoa leitosa. Após este primeiro episódio, uma a uma, cada pessoa com quem ele se encontra – sua esposa, seu médico, até mesmo o “aparentemente bom samaritano” que lhe oferece carona para casa – terá o mesmo destino. À medida em que a doença se espalha, o pânico e a paranoia contagiam a cidade. As novas vítimas da “cegueira branca” são cercadas e colocadas em quarentena num hospício caindo aos pedaços, onde qualquer semelhança com a vida cotidiana começa a desaparecer…

“Qualquer um pode ser acometido pela súbita falta de visão em meio ao caótico trânsito de São Paulo?”,questionam os pacientes. Segundo o oftalmologista Virgílio Centurion, diretor do IMO, Instituto de Moléstias Oculares, quando a visão diminui ou desaparece nos dois olhos, ao mesmo tempo, como no filme Ensaio Sobre Cegueira, os motivos são, na maioria das vezes, de ordem neurológica. “O olho é uma extensão do sistema nervoso central. Um quadro neurológico agudo pode ocasionar cegueira súbita. Entre os problemas neurológicos, a enxaqueca é uma das causas mais comuns. Algumas enxaquecas podem causar cegueira transitória”, explica o médico. Nestes casos, passada a cefaleia, a visão se normaliza. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cefaleia, a enxaqueca com aura  – alterações de visão – acomete de 10% a 15% dos pacientes, e os casos de cegueira parcial são raros. Os de cegueira total, então, são raríssimos.

Além das enxaquecas, algumas doenças sistêmicas também podem levar à perda de visão. Pacientes que sofrem de hipertensão arterial e que apresentam colesterol alto são mais propensos à baixa de visão, que pode ser repentina e total. “Uma queixa comum  dos pacientes hipertensos é o aparecimento de moscas volantes, que podem ser descritas como pontos pretos, manchas escurecidas ou fios que se assemelham às teias de aranha, observados principalmente quando o paciente olha para uma parede branca ou para o céu claro “, conta o oftalmologista Eduardo de Lucca, que também integra o corpo clínico do IMO.

No caso das doenças sistêmicas, o diabetes também é fator de risco, pois afeta a retina, e pode deteriorar a visão da noite para o dia. Uma das mais sérias comorbidades do diabetes é a retinopatia diabética, caracterizada por alterações vasculares, lesões que aparecem na retina, podendo causar pequenos sangramentos e a perda da acuidade visual.

Pacientes que apresentam miopia alta – que usam lentes corretivas com mais de dez graus – também têm maior predisposição para a cegueira súbita, mas neste caso, é possível prevenir o problema. “É preciso fazer rotineiramente um exame de retina”, explica o oftalmologista Eduardo de Lucca.

Além dos fatores já citados, outras razões podem provocar a perda de visão subitamente, como inflamações do nervo óptico, das meninges, deslocamento de retina, obstrução de veias e artérias ligadas ao globo ocular e o glaucoma. “A cegueira súbita acontece com mais frequência em apenas um olho. E em muitos desses casos, o paciente pode não perceber claramente a baixa de visão”, alerta Eduardo de Lucca.