Glaucoma e maior risco de quedas

As quedas são a principal causa de morte relacionada a lesões e de morbidade em idosos, especialmente aqueles com uma doença crônica dos olhos, como o glaucoma. Para investigar esse problema, um grupo multidisciplinar de pesquisadores decidiu empregar a tecnologia de realidade virtual para desenvolver um novo método para medir o controle do equilíbrio em pacientes com glaucoma. Os resultados do estudo, publicados na revista da Academia Americana de Oftalmologia, demonstram que a realidade virtual oferece um ambiente de testes mais realista em comparação aos métodos tradicionais de testes.

“Pessoas com glaucoma apresentam um risco três vezes maior de cair do que aqueles sem a condição. No entanto, as pesquisas, até agora, haviam demonstrado apenas uma fraca correlação entre os resultados obtidos pelos testes de campo visual e o risco de quedas em pacientes com glaucoma. Para resolver esse problema, um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia, San Diego, desenvolveu uma abordagem nova e mais eficaz, usando um óculos de realidade virtual”, explica o oftalmologista Virgílio Centurion (CRM-SP 13.454), diretor do IMO, Instituto de Moléstias Oculares.

Assim, a equipe de oftalmologistas, cientistas da visão e engenheiros estudaram dados de 42 pacientes com glaucoma de ângulo aberto e 38 indivíduos saudáveis como grupo de controle. Os indivíduos usavam o Oculus Rift, óculos estereoscópicos que podem simular diferentes cenários ao estar em uma plataforma de força, um dispositivo que mede o equilíbrio e o movimento. As medidas foram registradas pela plataforma de força, inclusive quando os óculos de proteção simularam movimentos como mover-se através de um túnel ou quando os óculos não foram usados ou não estavam fornecendo estímulo visual.

Durante os movimentos simulados, os pesquisadores descobriram que os participantes fizeram ajustes de equilíbrio, em média 30-40% mais pronunciados em pacientes com glaucoma do que em indivíduos saudáveis, que foram capazes de recuperar o equilíbrio mais rapidamente do que aqueles com glaucoma. “Os autores do estudo suspeitam que a acentuada falta de controle do equilíbrio nos pacientes com glaucoma pode estar relacionada com a perda de células ganglionares da retina causada pela doença, o que leva ao processamento visual mais lento e à percepção prejudicada do movimento”, afirma a especialista em glaucoma do IMO, a oftalmologista Márcia Lucia Marques (CRM-SP 110.583).

O estudo também constatou que o grau em que o equilíbrio foi perdido foi fortemente associado à história de quedas, que validou métodos e métricas do estudo. Os pesquisadores esperam que estudos futuros, utilizando este paradigma, possam ajudar os oftalmologistas a compreenderem melhor a relação entre o risco de quedas e a perda de células ganglionares da retina em pessoas com glaucoma.

“Testes tradicionais estáticos que medem o campo visual não reproduzem as condições visuais do dia-a-dia. Com mais refinamento deste método, esperamos que a abordagem possa um dia ser usada para identificar pacientes com alto risco de cair para que medidas preventivas possam ser empregadas”, defende a oftalmologista.

O glaucoma é uma das principais causas de cegueira irreversível em todo o mundo, afetando mais de 2,7 milhões de pessoas com 40 anos ou mais velhos, nos Estados Unidos. Apesar das dificuldades para realização de estudos epidemiológicos em nosso país, a Sociedade Brasileira de Glaucoma aponta cerca de 900.000 portadores da doença no Brasil, provavelmente, 720.000 são assintomáticos. Na sua forma mais comum, conhecida como glaucoma de ângulo aberto, há acúmulo de líquido na parte da frente do olho, aumento da pressão intraocular e danos ao nervo ótico. Sem tratamento adequado para impedir os danos ao nervo, pacientes com glaucoma de ângulo aberto normalmente perdem, primeiro, a visão periférica e podem, eventualmente, ficar cegos.