Glaucoma: principal causa de cegueira definitiva no mundo

O cinema de Hollywood estampou com clareza nas telas o sofrimento que o glaucoma causou ao cantor Ray Charles. O filme Ray mostra como a doença, aos poucos, vai apagando a visão do garoto negro e pobre. À mãe, sem informação alguma sobre o mal que acometia o filho e sem condições de buscar tratamento médico, restou apenas uma alternativa: preparar o garoto para o pior, crescer sem enxergar, encarar o mundo sem poder ver.

A imagem cinematográfica reflete a realidade mundial neste caso. No mundo todo, aproximadamente 36 milhões de pessoas cegas poderiam estar enxergando neste momento. São pessoas que perderam a visão em decorrência de cataratas que poderiam ser operadas, retinopatias diabéticas que poderiam ser controladas, glaucomas que poderiam ter sido tratados, dentre outras doenças curáveis e preveníveis. Segundo a OMS, Organização Mundial de Saúde, 80% da cegueira do mundo é curável ou evitável. O problema tem relação direta com as condições sócio-econômicas: 90% das pessoas cegas vivem em países do Terceiro Mundo, onde faltam serviços básicos de prevenção e tratamento ligados à saúde ocular.

Para o oftalmologista Virgilio Centurion, diretor do IMO, Instituto de Moléstias Oculares, o grande desafio da medicina atualmente é popularizar medidas preventivas destas doenças para toda a população. “Apesar de a maioria das doenças que afetam a visão poder ser tratada ou controlada, como é o caso da catarata, do glaucoma e da degeneração macular, elas ainda cegam os brasileiros por falta de diagnóstico precoce”, afirma Centurion.

Por isto, nunca é demais reforçar que visitas frequentes ao oftalmologista, uma vez por ano, devem ser feitas a partir dos 40 anos. É nessa idade que o glaucoma pode surgir. E a cegueira e a incapacidade visual causadas pelo glaucoma acarretam em consequências sociais, psicológicas e econômicas adversas para o indivíduo e para a sociedade.

Entenda a doença

O glaucoma é uma designação genérica para muitas doenças, marcadas por um aumento da pressão intraocular, causada pelo desequilíbrio entre a produção e a drenagem do humor aquoso. A causa da doença está geralmente relacionada há uma drenagem diminuída do humor aquoso através da pupila, da malha trabecular ou ainda pelo canal de Schlemm.

A doença ocular, séria e progressiva, lesa o nervo óptico, que sem tratamento adequado pode levar à cegueira. O processo da perda da visão periférica é tão lento que, geralmente, o paciente não sente nenhuma alteração.  O melhor remédio é a prevenção da doença, medida que muitos deixam de adotar porque não acreditam na intervenção precoce ou “pensam que este problema não acontecerá com eles”.

O glaucoma não tem cura, mas o diagnóstico precoce amplia as chances de controle da doença e evita a cegueira. O tratamento inclui o uso freqüente de colírios e a cirurgia, em alguns casos. Fundamental é a relação médico-paciente, mais importante fonte de informações para o paciente portador de glaucoma, associada ao acesso a jornais, revistas ou livros. Os oftalmologistas desempenham um papel importante na detecção precoce do glaucoma e na sua desmistificação, pois o desconhecimento sobre a doença e a elaboração de ideias falsas tendem a gerar a falta de participação do paciente no tratamento, agravando o prognóstico visual.

Como os estudos sobre o glaucoma avançaram ao longo dos anos, o acesso às informações atualizadas é fundamental para uma estratégia de prevenção eficaz. A pressão intraocular, por exemplo, já não é mais tida como fator indispensável para a ocorrência da doença. O aumento da pressão intraocular é considerado um dos fatores de risco. Portanto, no diagnóstico do glaucoma, outros fatores somam-se a ela, acarretando pior prognóstico da doença; dentre estes, o desconhecimento da população a respeito da doença e suas consequências visuais.

Exames preventivos

Visando a prevenção do glaucoma, é muito importante ir ao oftalmologista, pelo menos uma vez ao ano, para que a pressão ocular seja medida. Além disso, os que possuem fatores de risco como hipertensão, diabetes e glaucoma na família devem fazer avaliações visuais, de seis em seis meses, para verificação da curva diária de pressão do campo visual e da gonoscopia.

Para ter um bom prognóstico, o glaucoma depende essencialmente do diagnóstico precoce e da prevenção. A única forma segura de evitar suas consequências é fazer consultas periódicas com o oftalmologista, ele está preparado para medir a pressão intraocular, bem como examinar o nervo óptico por meio do exame de fundo de olho. Havendo suspeita de glaucoma, ele poderá solicitar exames de campo visual para verificar sua possível diminuição.

E dependendo da suspeita, o oftalmologista pode solicitar exames de imagem para auxiliar no diagnóstico. O OCT conta, hoje, com tecnologia suficiente para fornecer uma análise transversal do nervo óptico, o que é muito importante para acompanhar pacientes com hipertensão ocular e a própria progressão do glaucoma. Feitos com cuidado e regularidade estes exames podem auxiliar a identificar os pacientes saudáveis e os que já apresentam os primeiros sinais de danos glaucomatososos.

A tonometria é apontada como um exame essencial também, pois é capaz de rastrear o aparecimento do glaucoma. Ao medir a pressão ocular, por meio do tonômetro, o oftalmologista pode detectar a presença de hipertensão ocular, que pode ou não ser diagnosticada como glaucoma, de acordo com alterações no campo visual e na papila óptica.

Fator genético

A aquisição do conhecimento sobre a importância da hereditariedade é muito importante para alertar descendentes sobre o risco de desenvolver o glaucoma. O glaucoma é uma doença de caráter hereditário, e por isso em famílias de portadores de glaucoma há a necessidade que todos façam os exames preventivos.

Crianças que nascem com os olhos embaçados ou muito grandes, que têm fotofobia intensa, que evitam abrir os olhos no sol ou não gostam de claridade e cujos olhos lacrimejam muito precisam ser avaliadas por um oftalmologista. Estes sinais podem ser indício de glaucoma congênito. Esta é uma patologia rara, transmitida por herança genética e está relacionada às alterações no desenvolvimento ocular presentes no nascimento.

Deve-se realizar o diagnóstico o mais precocemente possível, pois sabemos que o prognóstico visual é melhor quando o tratamento é realizado nas fases iniciais da doença. O diagnóstico e o tratamento do glaucoma congênito precoces podem evitar que as crianças fiquem cegas ainda no primeiro ano de vida.

O diagnóstico da doença tende a ser um “balde de água fria nos pais”. Na proibidíssima biografia de Roberto Carlos – Roberto Carlos em Detalhes – o escritor Paulo Cesar de Araújo descreve o desespero do artista e de sua família ao descobrirem que o seu primogênito – Dudu Braga – havia nascido com glaucoma congênito. O ano era 1968, no Brasil, na época, nenhum hospital contava com especialistas na doença. O local mais indicado para o tratamento era a Holanda, que em função de sua alta incidência de casos de glaucoma desenvolveu e aperfeiçoou a técnica operatória usada para o tratamento da doença. Hoje, 40 anos depois, o Brasil conta com especialistas em Glaucoma reconhecidos mundialmente por sua excelência.

Importância do tratamento

Em todas as doenças, pacientes mais bem informados apresentam mais comprometimento com o próprio tratamento. No caso de glaucoma, especificamente, onde os tratamentos são prolongados, sem compreensão da sua finalidade e importância pelos pacientes, torna-se difícil a adesão ao tratamento.

O glaucoma progride lentamente e afeta, de maneira irreversível, a visão de cerca de 900 mil brasileiros, segundo dados da Abrag, Associação Brasileira dos Amigos, Familiares e Portadores de Glaucoma. Para não ficarem cegos, os portadores de glaucoma precisam usar, por toda a vida, remédios que, muitas vezes, devem ser aplicados mais de uma vez por dia.

Por isto, o glaucoma é uma doença que, por suas características clínicas e por seu prognóstico visual requer comprometimento do paciente com o tratamento. Trata-se de uma doença crônica que deve receber acompanhamento e tratamento prolongados, condições que previnem a cegueira.

A falta de adesão ao tratamento pelo paciente é uma causa importante de controle inadequado de pressão intraocular. São muitos os pacientes em tratamento que deixam de tomar os medicamentos antiglaucomatosos corretamente. É de extrema importância a manutenção e o reforço das orientações médicas durante todo o tratamento, pois assim como a diabetes e a hipertensão arterial, o glaucoma não tem cura, mas é passível de controle, garantindo a qualidade de vida do paciente.

Novas drogas

Novas drogas para o tratamento do glaucoma estão sendo pesquisadas em todo o mundo. O principal objetivo da Medicina é procurar por mecanismos diferentes para reduzir a pressão ocular. Como promessas, podemos citar, a curto prazo, as associações de medicamentos que já são empregados no tratamento da doença.

A médio e longo prazos, respectivamente, as apostas da Oftlamologia estão em novas drogas que possam funcionar como neuroprotetoras, auxiliando a redução da pressão ocular e na utilização de células tronco no tratamento da doença.